27 de ago de 2010

Conto Francisco Jamess - Por uma moeda

Minha fotoJá que recebi permissão, vai um conto do meu amigo Jamess do Baiúca do Bardo:







— Você é um homem de Deus, não é?
Eu tinha acabado de sair da estação Largo Treze do metrô, e estava parado olhando em volta esperando meu pai.
— Senhor! - ouvi a mesma voz, me virei e vi esse homem se aproximando - Eu olhei você saindo ali da estação e vi que você era um homem bom.
Ele era baixo e tinha a postura muito ereta. Vestia uma camiseta azul muito gasta, uma bermuda branca encardida e um chinelo de dedo, tinha um pouco de barriga que já devia ter sido cheia e grande, mas que hoje era mais pele. Ficou do meu lado e me estendeu a mão e eu a segurei e disse “oi.”:
— Tudo bem, senhor? Você é um homem de Deus, não é?
— Sou. - menti para evitar qualquer questionamento.
Ele fechou os olhos e o punho direito quando ouviu isso. Parecia estar feliz:
— Eu tô pedindo uma ajuda hoje, de uma moedinha que seja, pra comer alguma coisa. Desde manhã eu não como nada.
Fui andando até a beira da calçada e sentei no meio fio.
— Senta aqui, cara, vamos conversar.
— Vamos, vamos. - ele disse aparentemente animado - Qual seu nome?
— Jamess.
Jamess?
— Jamess.
Ja-mess?
— Isso. Jamess. E o seu?
— Meu nome é Antônio.
— Você mora na rua faz muito tempo?
— Faz.
— Por que você acabou aqui?
— Minha mãe morreu quando eu tinha menos de um ano de idade e meu pai era alcoólatra e batia muito na gente. Meus irmãos fugiram de casa um com 10 e outro com 12 anos. Eu ainda era novo demais para a rua só saí de lá com 14 anos. Fiquei uns meses na rua e depois quis procurar ajuda de uns poucos parentes que eu tinha mas ninguém quis por um filho da puta drogado pra dentro de casa. - se levantou.
— Você era? - perguntei, e me levantei também.
— Eu? Eu era um fodido! Me acabei na droga, mas agora eu não quero mais isso, nem cachaça mais eu bebo. Eu peço dinheiro pra comer. Eu tô com a barriga vazia desde manhã. - levantou a camiseta e mostrou uma barriga lisa e caída de quem emagreceu demais e batia nela com a mão espalmada, barulhento - Nem um pão eu comi. Nem um pão.
Olhei pra ele em silêncio por um tempo e perguntei:
— Onde você fica de noite?
— Eu durmo no albergue que tem ali depois da igreja. O povo da igreja ajuda a gente, leva roupa, dá janta
e a gente dorme lá. Você é da igreja?
— Não, não sou.
— Mas você é cristão.
— Não.
— Então você é o que?
— Eu não sou nada.
Silêncio.
— Você não quer ir lá no albergue? Eu te levo. É pertinho.
Eu fiquei curioso para saber como era o lugar mas respondi:
— Não posso. Tenho que esperar meu pai.
— Cê não pode comprar uma marmita pra mim?
— Eu não tenho tanto dinheiro.
— Mas você se veste bem. É tão bonito.
— Isso é roupa de brechó, cara.
— Mas seu rosto, sua pele é tão boa.
— Eu tomo água, não trabalho no sol, só isso. Não me preocupo.
— Mas por que você é tão bonito?
— Eu não sei, cara. eu não sei. - respondi ficando ao mesmo tempo feliz e triste. - Também sou pobre.
— Pobre é o Diabo! - ele respondeu - Pobre é o Diabo!
— Tá bom então...
— Você acha que eu me importo com dinheiro?
— Não.
— Dinheiro não importa, meu senhor... Essa camisa que eu visto! não importa... Essa bermuda rasgada aqui!
não importa... Esse chinelo! que até tá bom ainda de usar...
— Tá bom, tem bastante sola ainda.
— Pois é - ele riu - Esse chinelo aqui, não importa... Nada dessa merda toda em volta da gente - e girava o indicador sobre a cabeça - Nada disso importa, meu senhor. O que mais importa na vida ninguém mais pode me dar que é amor... - disse isso e cobriu os olhos com os dedos grossos. Parecia querer segurar seu choro.
— Você quer que eu me ajoelhe, senhor?
— Não! - eu disse, tentando puxar ele que já se ajoelhava.
— Você quer que eu me ajoelhe? Eu me ajoelho.
— Por que você faria isso?
Ele ainda segurava minha mão e agora estava ajoelhado e os passantes não pareciam notar.
— Porque, meu senhor, - a maioria do que ele falava parecia carregado de uma emoção muito sincera e
triste - eu tenho um Deus que cuida de mim e que eu amo muito.
— Que bom. - eu disse, sorrindo.
— É muito bom. - ele disse, e começou a cantar um hino da igreja, segurando minha mão, ajoelhado, e eu olhava ao redor embaraçado, mas ninguém parecia ver. Se levantou e disse - Ele salvou minha vida
sabia?
Não respondi.
— Teve um tempo que eu fiquei triste demais as ruas tavam sendo muito duras comigo. E eu desisti.
— Desistiu?
— Fui até a ponte do Santo Amaro e olhei pra baixo um bom tempo pensando e vi que não tinha por que eu continuar aqui. Tentei subir no parapeito e uma mão me segurou.
— Ham.
— Eu olhei pra trás e tinha um velho com o dobro da minha idade e uma barba enorme, cabelo grande e uma roupa esfarrapada branca. Ele olhou pra mim com raiva e me puxou tão forte que eu quase caí e eu gritei "me deixa em paz!" e corri pro parapeito de novo e ele me puxou de novo, "não vai pular.", e eu gritei, "me deixa, eu vou pular!" e ele me puxou de volta muitas vezes e eu fiquei cansado e nem consegui mais subir no parapeito. Olhei pra trás e não vi mais ninguém e fiquei sentado no chão chorando.
Eu fiquei em silêncio um tempo sem reação ou resposta. Ele se sentou no chão e eu sentei também
e vi que ele começava a chorar como que ofendido.
— Você não acredita, né, filho da puta?
— Não.
— Você não acredita... - ele disse e tinha lágrimas no rosto queimado de sol - Eu tô aqui te dando meu testemunho. Dizendo que Deus me salvou da morte e você não acredita.
— Não. Eu não estava lá pra ver.
— Você não acredita... Se você não quiser, não precisa nem me dar nada. Pode ir embora. - ele disse
com raiva nos olhos chorosos.
Eu olhei pra ele ainda alguns segundos com lamento e disse, “tá bom então...”, e me levantei.
— Mas se você quiser me dar um trocado eu aceito. Mas só se você quiser.
— Toma.
Estendi uma nota de 2 reais que ele pegou enquanto se levantava rápido e feliz, agradecendo:
— Obrigado, senhor. obrigado mesmo. - e me abraçou com novo ânimo - Cê tá esperando seu pai, né? Não tem como você conversar com ele pra ele me arrumar uma cesta básica ou algo assim?
— Meu pai é pintor, cara, ele não tem condições pra isso. Não sou filho de rico não.
— Ooora... então, boa noite, meu senhor. - e beijou minha mão.
— Tchau, fica com Deus.
Dois segundos depois ele estava abordando outra pessoa, talvez com a mesma fala inicial, talvez a adaptando para um sujeito diferente. Eu nunca soube. Virei o rosto e vi meu pai com olhar sério:
— Onde você tava? Eu tava te esperando lá na outra saída do metrô.
— Eu tava aqui esperando também.
— Vamos logo. Tem dinheiro pra outra passagem?
— Não. Acabou.
— Eu te dou um passe.
— Tá.
Meu pai não teria notado o mendigo também. Eu continuo notando cada um deles mas não consigo mais falar com tantos.

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